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Filosofia de Nietzsche

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Filosofia de Nietzsche

Mensagem por Fundador em 12th Julho 2011, 17:21

A filosofia de Nietzsche marcou uma profunda ruptura na cultura ocidental. Crítico da racionalidade imperante, afirmou a primazia de tudo aquilo que fora recalcado, como a vida instintiva.

Dionísio e Apolo

Numa das suas primeiras obras, Origem da Tragédia (1871), Nietzsche distingue na cultura grega dois princípios fundamentais, e que irão servir de matriz para analisar a cultura europeia: o Apolíneo e o Dionisíaco.

O princípio Apolíneo (do deus Apolo), simboliza a serenidade, claridade, medida, racionalidade. Corresponde à imagem tradicional da Grécia Clássica e que aparece frequentemente associado às figuras de Sócrates e Platão.

O Dionisíaco (do deus Dionísio), simboliza as forças impulsivas, o excesso transbordante, o erotismo, a orgia, a afirmação da vida e dos seus impulsos (força, vontade).

Estes dois princípios estavam presentes na tragédia e na cultura grega, antes da influência de Sócrates se fazer sentir. Ele submete os impulsos vitais e a sua energia excessiva aos constrangimentos da razão. Esta viragem na filosofia coincide com aquilo que Nietzsche considera a decadência da tragédia, preconizada por Eurípedes, mas também ligada ao aparecimento da comédia.

A partir de Sócrates-Platão, a cultura ocidental seria marcada pela repressão dos instintos vitais e a negação do prazer.

Homem Doente

Dotado de um pensamento reducionista, o "homem teórico" encara o mundo pelos olhos da lógica e da ciência, descobrindo uma ordem cósmica onde existe o caos. Repudia tudo aquilo que se mostra incerto, misterioso ou irracional, munindo-se para este combate de poderosos instrumentos como a Culpa ou o Ressentimento. Mostra-se igualmente incapaz de aceitar o sofrimento e as contradições da vida. O homem doente procura sempre uma consolação para os seus fracassos, imagina um outro mundo onde obterá aquilo que abdicou de lutar na terra.

Eterno Retorno

A visão da história da humanidade, segundo Nietzsche, assenta na concepção de um eterno retorno. Quando forem realizadas todas as possibilidades de combinação dos elementos, tudo voltará a repetir-se num novo ciclo. A cultura ocidental, segundo Nietzsche, depois de uma fase de apogeu, desde Sócrates que entrara numa longa fase de decadência que a conduziu ao niilismo, marcado pela ausência de valores, terminando no indiferentismo. Neste percurso os valores superiores foram sendo substituídos pelos valores dos escravos, difundidos pelo Cristianismo e consagrados nos regimes democráticos e na ascensão das classes trabalhadoras. Estes falsos valores negam a vida em nome de ilusões (ideais) ou de uma vida futura.

A única possibilidade de sair desta fase de decadência é o homem transformar-se a si próprio, mediante a transmutação de todos os seus valores, encaminhando-se para aquilo que designou por Além do Homem. Apenas uma pequena elite atingirá este estádio.

Além do Homem

Nietzsche, como dissemos, opõe-se a todas as ideias igualitaristas, humanitaristas e democráticas. De acordo com o seu pensamento, as mesmas aprisionam o homem, não o libertam. O seu modelo de homem está nos príncipes do Renascimento: valente, hábil, sem moral (acima do Bem e do Mal), apenas se guiando pela sua vontade de poder, a sua energia vital. O Além do Homem é aquele que aceita a vida como ela é: incerta, conflituosa e sem ilusões. Ele aceita as forças cósmicas incertas e contraditórias que os outros negam e temem.

Moral de Senhores e Moral de Escravos

A libertação do homem exige um combate sem tréguas contra a moral dos escravos. Em primeiro lugar critica a moral socrática, que subordina tudo à razão. A seguir condena a religião e a moral cristã que enaltece os fracos, apela à compaixão e à resignação dos homens, promete recompensas num mundo no além que não existe, estimulando a inveja pelos poderosos. Condena igualmente a moral do dever de Kant, e a ética utilitarista. Nesta crítica, Nietzsche realiza uma minuciosa análise linguística, histórica e psicológica dos conceitos e das práticas que suportam estas concepções morais.

A moral dos senhores, a do Além do Homem, valoriza a força, a irrupção dos impulsos vitais, a vontade de poder. Nietzsche chega inclusive a valorizar a guerra, pois durante esta criam-se especiais oportunidades para a manifestação de virtudes nobres, como a valentia ou a generosidade dos guerreiros.

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Re: Filosofia de Nietzsche

Mensagem por Fundador em 16th Julho 2011, 00:58

"A descoberta da moral cristã aparece como acontecimento sem par, como verdadeira catástrofe. Aquele que a põe a nu é uma força potente, uma fatalidade - divide a história da humanidade em duas partes: a dos que viveram antes, a dos que viverão depois... O raio da verdade caiu sobre tudo quanto até agora estivera no estádio mais sublime: e quem for capaz de compreender o que lá se destruiu, veja se lhe ficou ainda alguma coisa nas mãos. Tudo quanto até hoje se chamou verdade foi desmascarado como forma da mentira mais perigosa, mais pérfida, mais subterrânea; o pretexto sagrado de "tornar os homens melhores" revela-se astúcia para esgotar a própria vida, para torná-la anémica sugando-lhe o sangue. A moral como «vampirismo»... O que descobre a moral, descobre com ela a transmutação de todos os valores, o não-valor de todos os valores em que se acreditava; já nada vê digno de veneração nos tipos mais venerados da humanidade, naqueles mesmo que foram canonizados, vê neles a forma mais fatal dos seres malogrados, fatal porque «fascinante»... A ideia de «Deus» foi composta, foi investida como ideia contrária à vida - nela, em simbiose estupenda, se resume tudo quanto é nocivo, venenoso, caluniador, todo o ódio mortal contra a vida. A ideia do «além», do «mundo-verdade», foi inventada apenas para depreciar o único mundo que existe - para destituir a nossa realidade terrestre de todo o fim, razão e propósito! A ideia de «alma», de «espírito» e, ao fim e ao cabo, ainda a de «alma imortal», foi inventada para desprezar o corpo, para o tornar doente - «sagrado» - para tratar todas as coisas que merecem atenção na vida - as questões de alimentação, habitação, regime inteletual, cuidados com os doentes, higiene, temperatura - com a mais espantosa incúria! Em vez de saúde, «salvação da alma» - quer dizer uma loucura circular que vai das convulsões da penitência à histeria da redenção! A ideia de «pecado» foi inventada com o complementar instrumento de tortura, o «livre-arbítrio», para extraviar os instintos, para fazer da desconfiança para com os instintos uma segunda natureza! Na noção de «desinteresse», de «renúncia», encontra-se o verdadeiro sinal de decadência. A atração que exerce tudo quanto é maléfico, a incapacidade de discernir o próprio interesse, a destruição de si próprio, tornaram-se qualidades, e são o «dever», a «santidade», a «divindade» no homem! Enfim - e é o que há de mais terrível - na ideia do homem bom, toma-se partido por tudo quanto é débil, doente, malogrado, por tudo quanto sofre da própria imperfeição, por tudo quanto deve perecer - a lei da seleção é contrariada, constituindo-se um ideal de oposição ao homem altivo e bem logrado, ao homem afirmativo pelo qual se garante o porvir. Este homem torna o «homem mau»... E em tudo isso, sob o nome de «moral», se acreditou!"

Ecce Homo, Porque Sou Uma Fatalidade, 8

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Re: Filosofia de Nietzsche

Mensagem por Fundador em 19th Julho 2011, 16:31

Assim Falou Zaratustra - a obra-prima de Nietzsche. Toda a sua filosofia está presente nas palavras deste arauto do além do homem. Mas porque escolheu Nietzsche «Zaratustra» para a sua obra-prima? Nietzsche explica em Ecce Homo, Porque Sou Uma Fatalidade, 3:

"Nunca me perguntaram, como deviam, qual é, na minha boca, na boca do primeiro imoralista, o significado de Zaratustra; pois bem, o que constituiu o caráter grandioso e singular deste persa na história, é precisamente o contrário do que pode observar-se em mim. Zaratustra foi o primeiro a ter a luta do bem e do mal como mola essencial no jogo das coisas - a transposição da moral em metafísica, da moral apreendida como força, causa e fim em si, eis a sua obra. Mas no fundo da própria pergunta estaria já incluída a resposta. Zaratustra criou este erro cheio de fatais consequências que é a moral, deve ser por conseguinte o primeiro a reconhecer o erro. Não só possui aqui experiência mais ampla e profunda do que outros pensadores - a história, em sua totalidade, outra coisa não é senão a refutação experimental das proposições da pretensa «ordem moral» - mas, observação mais importante, Zaratustra é mais verídico do que qualquer outro pensador. A sua doutrina, e só ela, considera a veracidade como superior virtude - e isso significa a oposição à cobardia dos «idealistas» que fogem perante a realidade; Zaratustra tem mais coragem que todos os pensadores juntos. Dizer a verdade, saber disparar o arco, é a virtude persa. Compreendem-me? A vitória da moral sobre si própria, a vitória do moralista sobre si próprio, para vir terminar no seu contrário, ou seja «em mim», eis o que significa na minha boca Zaratustra."


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Re: Filosofia de Nietzsche

Mensagem por Fundador em 22nd Julho 2011, 15:04

A Fragilidade dos Valores

Todas as coisas «boas» foram noutro tempo más; todo o pecado original veio a ser virtude original. O casamento, por exemplo, era tido como um atentado contra a sociedade e pagava-se uma multa, por ter tido a imprudência de se apropriar de uma mulher (ainda hoje no Camboja, o sacerdote, guarda dos velhos costumes, conserva o jus primae noctis). Os sentimentos doces, benévolos, conciliadores, compassivos, mais tarde vieram a ser os «valores por excelência»; por muito tempo se atraiu o desprezo e se envergonhava cada qual da brandura, como agora da dureza.

A submissão ao direito: oh! que revolução de consciência em todas as raças aristocráticas quando tiveram de renunciar à vingança para se submeterem ao direito! O «direito» foi por muito tempo um vetitum, uma inovação, um crime; foi instituído com violência e opróbio. Cada passo que o homem deu sobre a Terra custou-lhe muitos suplícios intelectuais e corporais; tudo passou adiante e atrasou todo o movimento, em troca teve inumeráveis mártires; por estranho que isto hoje nos pareça, já o demonstrei na Aurora, aforismo 18: «Nada custou mais caro do que esta migalha de razão e de liberdade, que hoje nos envaidece». Esta mesma vaidade nos impede de considerar os períodos imensos da «moralização dos costumes» que precederam a história capital e foram a verdadeira história, a história capital e decisiva que fixou o carácter da humanidade. Então a dor passava por virtude, a vingança por virtude, a renúncia da razão por virtude, e o bem-estar passivo por perigo, o desejo de saber por perigo, a paz por perigo, a misericórdia por opróbio, o trabalho por vergonha, a demência por coisa divina, a conversão por imoralidade e a corrupção por coisa excelente.

Genealogia da Moral

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Re: Filosofia de Nietzsche

Mensagem por Caio Enobarbo em 26th Dezembro 2013, 18:03


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Re: Filosofia de Nietzsche

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