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Crepúsculo dos Ídolos

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Crepúsculo dos Ídolos

Mensagem por Fundador em 29th Junho 2011, 23:39

Friedrich Nietzsche

1
Este escrito, que não alcança as cento e cinquenta páginas, de tom sereno e fatal, como um demónio escarninho, obra de tão poucos dias que não me atrevo a dizer quantos, representa, entre os livros em geral, uma excepção: nada mais seguro, mais autónomo, mais revolucionário - e mais maldoso. Se se pretende formar rapidamente ideia de como até mim tudo estava de pernas para o ar, deve começar-se por ler esta obra. O que no frontespício chamei «ídolo», é precisamente o que até agora se chamou Verdade. «Crepúsculo dos ídolos» significa: estamos no fim das velhas verdades.

2
Não há «realidade», não há "idealidade que neste livro não seja aflorada: que eufemismo tão circunspecto!". Não só os ídolos eternos, como também outros mais recentes, e por conseguinte, mais senis.

A «ideia moderna», por exemplo, uma ventania sopra através das árvores, e os frutos, por todos os lados, caem ao chão - frutos que são verdades.

Há neste livro a exuberância de um fecundo Outono. Tropeça-se nas verdades; algumas chegam a ser pisadas, pois há tantas!... Aquilo, porém, que colhemos não são já frutos problemáticos, são frutos autênticos. Só eu tenho na mão o metro para as verdades, só eu posso julgá-las. E é como se outra forma de consciência tivesse surgido, como se «a vontade» tivesse acendido em mim uma luz no caminho em declive; pelo qual até hoje se viera descendo sempre... Ao caminho em declive - chamavam os homens «Caminho da verdade»... Estamos no fim do «impulso obscuro», o homem bom era precisamente o que menos consciência tinha do bom caminho... E, isto muito a sério, ninguêm conhecia antes de mim o bom caminho, o caminho das alturas: só desde agora há renovadas esperanças e tarefas, novos caminhos para a cultura, cujo sulco está já traçado... Sou o alegre pioneiro... E por isso mesmo sou uma fatalidade.

3
Logo depois de terminada a obra de que falei, e sem perder um dia, empreendi a enorme tarefa da Transmutação, animado por um sentimento de orgulho sem par, seguro a cada instante da minha imortalidade, inscrevendo, em tábuas de bronze, os sucessivos símbolos, com segurança fatal.

O prefácio foi escrito a 3 de Setembro de 1888.

Quando, uma manhã, depois de o ter revisto, saí a espairecer, achei perante mim o dia mais lindo que brilhava sobre o Alto Engadine, um dia luminoso e maravilhoso, com toda a gama de coloridos entre o céu e a terra. Permaneci em Sils-Maria até 20 de Setembro, detido pelas inundações, tendo sido durante muitos dias o único hóspede naquela estância maravilhosa, pela qual conservarei memória de eterna gratidão. Após uma viagem muito acidentada, em que a minha vida chegou a estar em perigo, ao alcançar Como, invadida pelas águas, cheguei finalmente a Turim no dia 21, terra entre todas minha preferida e onde fixei residência desde então. Ocupei de novo o mesmo quarto onde estanciara na Primavera, Via Carlos Alberto, 6111, em frente do imponente palácio Carinagno, em que nasceu Vítor Manuel. As janelas do meu quarto davam para a praça Carlos Alberto, sendo o horizonte limitado por colinas. Sem hesitação e sem me deixar distrair um momento, dei-me de novo ao meu trabalho; faltava-me terminar a parte final da obra; ao sétimo dia, descanso de um deus que passeia pelas margens do Pó. No mesmo dia ainda escrevi o prefácio do Crepúsculo dos Ídolos, em cuja revisão me ocupei durante todo esse mês. Nunca vivi um Outono assim e nunca pude supor que tal coisa fosse possível: um Cláudio Lorrain transposto para o infinito, e, sobre a terra, uma sucessão de dias de inalterável perfeição.

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Re: Crepúsculo dos Ídolos

Mensagem por Fundador em 19th Outubro 2011, 18:43

Crepúsculo dos Ídolos - Prólogo

"Conservar a sua serenidade frente a algo sombrio, que requer responsabilidade além de toda medida, não é algo que exige pouca habilidade: e, no entanto, o que seria mais necessário do que a serenidade? Nada chega efetivamente a vingar, sem que a altivez aí tome parte. Somente um excedente de força é demonstração de força.

Uma transvaloração de todos os valores, este ponto de interrogação tão negro, tão monstruoso, que chega até mesmo a lançar sombras sobre quem o instaura – um tal destino de tarefa nos obriga a todo instante a correr para o Sol, a sacudir de nós mesmos uma seriedade que se tomou pesada, por demais pesada. Qualquer meio para tanto é correto, qualquer "caso", um golpe de sorte.

Sobretudo a guerra. A guerra sempre foi a grande prudência de todos os espíritos que se tornaram por demais ensimesmados, por demais profundos; a força curadora está no próprio ferimento. Uma sentença, cuja origem mantenho oculta frente à curiosidade douta, tem sido há muito meu lema: increscunt animi, virescit volnere virtus.

Uma outra convalescença, que sob certas circunstâncias é para mim ainda mais desejável, consiste em auscultar os ídolos… Há mais ídolos do que realidades no mundo: este é o meu "mau olhado" em relação a esse mundo, bem como meu "mau ouvido"… Há que se colocar aqui ao menos uma vez questões com o martelo, e, talvez, escutar como resposta aquele célebre som oco, que fala de vísceras intumescidas – que encanto para aquele que possui orelhas por detrás das orelhas! – para mim, velho psicólogo e caçador de ratos que precisa fazer falar em voz alta exatamente o que gostaria de permanecer em silêncio…"

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