História Universal
SIGA-NOS NO FACEBOOK

CURTA NOSSA PAGINA
loading...

Reinado de D. Afonso IV

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Ir em baixo

Reinado de D. Afonso IV

Mensagem por Fundador em 15th Fevereiro 2012, 17:04

O quarto Afonso veio a ter um longo reinado: trinta e dois anos de governo, em que os acontecimentos públicos são mais de ordem episódica, mesmo romanesca, do que de importância política, pelo menos no aspeto que lhes imprimiu a tradição. Os elementos do Estado tinham encontrado equilíbrio. A nobreza aquietava-se sob a autoridade prestigiada dos reis. O clero já não exigia um predomínio exagerado. A classe popular crescera em importância social, pela extensão do regime municipal e sobretudo pela não-existência de uma nobreza territorial na vasta zona conquistada.

Os três quartos de século decorridos desde a morte de D. Sancho I representavam um esforço formidável na reforma dos costumes económicos e administrativos. A transformação regularizara-se, fixara-se num corpo geral de leis escritas. O dilatado exercício desse conjunto de normas dera estabilidade ao regime administrativo, como a toda a vida nacional.

O reinado abre por uma dessas lutas de família que caracterizaram as últimas décadas, e fechará por um conflito da mesma natureza, a completar o ciclo.

D. Afonso IV, aclamado nas Cortes de Évora (1325), não pôde perdoar ao irmão bastardo a parte brilhante que teve na Corte do pai. Afonso Sanches é publicamente acusado de ter querido envenenar o irmão para lhe suceder.

Saíra do reino ainda em vida de D. Dinis. Vivia em Albuquerque, como vassalo do rei de Castela. Logo que o irmão subiu ao trono, assegurou-lhe, por carta, que o serviria com a mesma fidelidade com que servira o pai. Em breve, porém, condenado pelo rei de Portugal a desterro perpétuo e à perda de todos os bens, rodeou-se dos seus homens de armas e fez irrupção na região de Bragança, assolando as terras por onde passava. Ao mesmo tempo mandava invadir, por seu filho João Afonso, as terras de Odiana.

O mestre de Avis, Gonçalo Vaz, comandando a hoste do rei, é derrotado no termo de Ouguela. D. Afonso IV, em pessoa, invade os domínios do bastardo, em terras de Albuquerque, e toma o Castelo de Codeceira, após demorado cerco. Afonso Sanches vê-se forçado a aceitar a paz (1326). Parece até que adoecera de sezões, e que a rainha-mãe, D. Isabel, conseguira aplacar a cólera do filho, no seu habitual papel de pacificadora. O bastardo recebeu de novo os seus domínios de Albuquerque. Passados três anos, morria.

Por 1328, o jovem rei de Leão e Castela, Afonso XI, casava com a infanta portuguesa D. Maria. O casamento não foi feliz. A nova rainha de Castela era frequentemente maltratada pelo marido, o que irritava sobremodo o monarca português. Por último, Afonso XI, apaixonado pela formosa Leonor de Gusmão, exibiu publicamente o adultério.

Em 1335, ou princípios de 1336, D. Afonso IV ajustava o casamento do herdeiro da Coroa, D. Pedro, então com quinze anos, com D. Constança Manuel, que o castelhano repudiara depois de ter celebrado esponsais com ela. Afonso XI tentou evitar o casamento, e opôs-se a que a infanta, na vinda para Portugal, atravessasse os seus estados. Movia-o o antigo ódio contra o pai da infanta, João Manuel, que, após o repúdio, se levantara em armas contra ele.

Foi esse o casus belli. D. Afonso IV declara a guerra. Tem por aliados o rei de Aragão, o infante João Manuel e o magnata castelhano Nunes de Lara. Vai sitiar Badajoz, enquanto o conde de Barcelos opera uma incursão na Galiza. Forças da marinha, vinte galés, atacam as costas de Sudoeste, além-Guadiana, sendo repelidas em frente de Lepe (8 de Setembro de 1336). O castelhano é denodado na guerra. D. Afonso IV é forçado a levantar o cerco de Badajoz. E a incursão na Galiza é vingada por uma incursão de castelhanos no Norte de Portugal, repelida com felicidade. O almirante Manuel Peçanha, depois de atacar as costas galegas, volta ao Sul, mas a sua armada é batida nas alturas do Cabo de S. Vicente. Os castelhanos ainda operam entradas na região de Elvas e no Algarve.

Com o fim de apaziguar os príncipes cristãos, o papa envia um legado à Península. O de Castela e o de Aragão firmam pazes (Novembro de 1338) e logo depois unem-se em aliança contra o sultão de Marrocos. As forças castelhanas vencem Abdelmélique, filho do sultão, nos campos de Antequera (1339), e o próprio sultão atravessa o estreito, no propósito de vingar o desastre. É por este tempo que a rainha de Castela intervém junto de seu pai, no desejo de o reconciliar com o marido. Castelhanos e portugueses assentam a paz em Sevilha, a 10 de Julho de 1340. Pelas cláusulas do tratado, Afonso XI compromete-se a tratar dignamente a rainha, sua mulher, e a deixar transitar livremente por Castela, a caminho de Portugal, a infanta D. Constança.

Portugal e Castela aliam-se então para combater os mouros. Afonso XI obtém do sogro uma frota. Mas a empresa começa por um desastre: a destruição da armada castelhana por uma tempestade. A frota de Peçanha não passou além de Cádis.

Afonso XI pede ao sogro auxílio mais eficaz, a sua própria intervenção na campanha. O rei de Portugal parte para Sevilha, à frente de um contingente de mil lanças. Dali as forças reunidas dirigem-se para a península de Tarifa (Outubro de 1340).

Abul Háçane, o sultão, levanta o cerco de Tarifa e prepara-se para a batalha campal. As tropas muçulmanas dispõem-se na vertente que desce até ao rio Salado. Portugueses e castelhanos tomam posições na margem fronteira. A batalha, que começou às 9 da manhã do dia 30 de Outubro, travou-se nos vaus do rio. Foi porfiada e sangrenta. Valiosíssima a presa. A própria tenda do sultão e o seu harém ficaram em poder dos cristãos. "Nesta jornada – diz o historiador espanhol Ballesteros – cobriram-se de glória os portugueses com o seu monarca, que derrotou o de Granada".

Remata o ato o nobre desinteresse do rei de Portugal, que recusou partilhar do riquíssimo espólio dos vencidos. E, como recordação da Batalha do Salado, Afonso, o Bravo, apenas trouxe um chefe mouro que aprisionara, além de algumas espadas e bandeiras tomadas ao inimigo.

Nos últimos anos do reinado renascem as lutas de família. Pedro, o infante herdeiro, tinha vinte anos quando se realizou em Lisboa o casamento definitivo com D. Constança (1340).

Já depois de instalada na Corte portuguesa, a infanta tomou ao serviço, como donzela, uma prima sua, Inês de Castro, filha do fidalgo galego Pedro Fernandes de Castro, mulher de extraordinária formosura, que mereceu dos coevos o gracioso nome de Colo de Garça.

D. Pedro deixou-se prender de uma súbita paixão por essa formosa criatura, sua prima também, pois descendiam ambos de Sancho IV de Castela. O infante era dado à violência das paixões. Dominavam-no delírios mórbidos. As coisas chegaram a termo que o escândalo estalou na Corte.

D. Afonso IV era de uma grande rigidez de costumes. Não se lhe conhecem filhos bastardos. Agastou-se com a desvergonha e quis arredar a causa do vexame, forçando a amante do filho a abandonar o país. Mas D. Constança sucumbiu ao parto do seu terceiro filho, Fernando, aquele que viria a reinar. D. Pedro, liberto da algema matrimonial, passou a ostentar publicamente o concubinato. E da ligação com a bela Inês nasceram sucessivamente quatro filhos.

A situação complicou-se assim aos olhos do rei e da Corte. Os bastardos bastas vezes tinham sido motivo de graves perturbações políticas. Parece que D. Afonso IV, logo depois da morte de Constança, procurou casar o filho de novo. D. Pedro, porém, afirmou não querer ofender a memória da esposa morta. E aos que lhe falavam do rumor corrente do seu casamento secreto com Inês, costumava dizer que ela não era sua esposa e jamais o seria.

A sua intromissão nos negócios internos de Castela deu novos motivos de inquietação a D. Afonso IV e aos seus conselheiros. Os irmãos de Inês, Álvaro e Fernando de Castro, privavam intimamente com ele, exercendo perniciosa influência sobre o seu espírito. Induzido por eles, o herdeiro de Portugal declarou-se pretendente às coroas de Leão e Castela, quando, em 1354, o governo oscilante de Pedro, o Cruel, fazia prever a sua queda, em face da intriga urdida pelos filhos de Leonor de Gusmão, bastardos de Afonso XI. A Corte portuguesa viu grave perigo nessa intervenção, como na influência crescente dos Pires de Castro. Ser-lhes-ia fácil desfazerem-se do único esteio da dinastia, o pequeno infante D. Fernando, filho de D. Pedro e D. Constança, para que sucedesse no trono um dos filhos de Inês.

Estes ponderosos motivos venceram o espírito do rei, para o qual a razão de Estado primava tudo. Às frequentes sugestões dos cortesãos mais íntimos, o monarca cedeu finalmente: decidiu a morte de Inês com os do seu conselho, entre os quais o meirinho-mor Álvaro Gonçalves, chefe das justiças.

Estava então a Corte em Montemor-o-Velho. A intriga palaciana exasperou-o a tal ponto que se meteu a caminho de Coimbra, acompanhado de gente armada, e só se deteve no paço que junto ao Convento de Santa Clara mandara edificar Isabel de Aragão. Aí vivia Inês. Uma cena dialogada, que os cronistas de Quinhentos legaram aos séculos futuros, ter-se-ia passado entre o rei e Inês, que, rodeada dos filhos, teria conseguido abrandar o coração de D. Afonso IV, até que a pertinácia dos conselheiros de novo lhe recordou a poderosa razão de Estado. Segundo essa narrativa, em que depois se inspiraram poetas e romancistas, o rei saiu do Paço de Santa Clara ainda hesitante, tendo acabado por dizer aos conselheiros que fizessem o que quisessem. Mal o rei voltou costas, a sentença cumpriu-se: Inês de Castro foi degolada (7 de Janeiro de 1355).

A notícia do facto enfureceu o infante. Logo teve partidários que o acompanharam na rebelião e o ajudaram a levantar um exército no Norte do país, ao mesmo tempo que os Castros surgiam da Galiza com tropas. As forças reunidas atravessaram Entre Douro e Minho, assolando as terras dos nobres que intervieram no caso, e pretenderam fazer do Porto o baluarte da resistência contra o monarca.

O rei, que partiu para o Norte com a hoste, chegara a Guimarães, quando soube que o filho rebelde sitiava o Porto. Mas D. Pedro levantou o cerco ao saber que a hoste régia se aproximava, e dirigiu-se a Canaveses, onde se encontrava a rainha. D. Beatriz procurou reconduzi-lo à obediência, e, a 15 de Agosto de 1355, celebrava-se um acordo entre o monarca e o herdeiro do trono, prestando este juramento de tudo esquecer e perdoar, comprometendo-se a não perseguir os inimigos da véspera.

A guerra civil durara de Janeiro a Agosto. Se acreditarmos no cronista Acenheiro, foram tantas as mortes e as assolações que os povos de Portugal fizeram ouvir as suas queixas – "disseram que se conviessem, senão que os não podiam sofrer".

O rei pouco sobreviveu a estes acontecimentos. Morreu a 28 de Maio de 1357.

No seu governo, convocou Cortes por várias vezes, prestou cuidadosa atenção aos serviços da justiça, que reformou, como reformou outros serviços, nomeadamente os da marinha.

A expansão marítima de Portugal inicia-se neste reinado. D. Afonso IV enviou uma expedição às Canárias, não se sabendo em que data, mas decerto anteriormente a 1336. Existe uma carta enviada pelo monarca ao pontífice, datada de Montemor a 12 de Fevereiro de 1345. Nela D. Afonso IV responde à epístola em que Clemente VI doara ao príncipe Luís de Espanha as Ilhas Afortunadas (Canárias), como feudo perpétuo da Sé de Roma. Afirma o rei português que "os nossos naturais foram os primeiros que acharam as mencionadas ilhas".

A expedição de Afonso IV foi a primeira enviada àquelas terras com intentos de colonização. Ele mandou "navios e gente", que, desembarcando, se apoderou de homens, animais e várias coisas que trouxe para Portugal. E tencionava lá mandar uma grande frota que efectuasse a conquista; mas a guerra com Castela primeiro e depois a expedição a Tarifa desviaram-no do propósito.

Segundo um relato do poeta florentino Bocácio, o rei de Portugal enviou segunda expedição às Canárias em 1341. Os seus emissários partiram em Julho e regressaram em Novembro, trazendo quatro africanos e diversos produtos indígenas, como madeiras, óleos de peixe e peles. O que quer dizer que, já em meados do século XIV, os marinheiros portugueses se tinham aventurado nos mares desconhecidos do Sul, embora logo secundados pelos espanhóis.

Por Ângelo Ribeiro, em História de Portugal, Volume II

Fundador
Administrador

Mensagens : 1615

Voltar ao Topo Ir em baixo

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Voltar ao Topo

- Tópicos similares

Permissão deste fórum:
Você não pode responder aos tópicos neste fórum