História Universal
SIGA-NOS NO FACEBOOK

CURTA NOSSA PAGINA
loading...

Reinado de D. Sebastião

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Ir em baixo

Reinado de D. Sebastião

Mensagem por Fundador em 21st Janeiro 2012, 15:29

Dos nove filhos de D. João III e de Catarina de Áustria, apenas dois atingem a adolescência: o príncipe D. João, que, em 1552, casa com a infanta D. Joana de Castela, filha de Carlos V, e a infanta D. Maria, que, em 1543, se consorcia com Filipe II de Espanha. Dois anos após o seu casamento, estando sua mulher quase de parto, o príncipe D. João falece e é com justificado júbilo que, onze dias depois, a nação acolhe o nascimento de um herdeiro, D. Sebastião. A ameaça do trono ter de passar para o outro neto de D. João III, para o príncipe D. Carlos, filho de D. Maria e de Filipe de Castela, estava de momento posta de parte.

Quando em Junho de 1557 morre subitamente D. João, o conselho régio escolhe para regente e tutora de seu neto D. Sebastião, D. Catarina, embora o Senado de Lisboa não tivesse ocultado a sua inquietação por ver o governo entregue a uma castelhana, sogra de Filipe II, já então rei. E razão tinha o povo, pois D. Catarina, embora não ousasse reconhecer publicamente, como pretendia Castela, os direitos de D. Carlos ao trono para a hipótese de D. Sebastião vir a falecer, não deixara de acolher com simpatia as instâncias castelhanas.

Infelizmente ia longe já o tempo em que a vontade popular se manifestava desassombradamente, com a intuição segura dos interesses superiores do reino. O absolutismo criara hábitos de subserviência ante as decisões da vontade régia e agora que, mais do que nunca, a regência de uma rainha castelhana, tutora de um pequeno príncipe fraco e doente, se apresentava cheia de ameaças, o sentir popular traduz-se apenas por leves rumores de descontentamento.

Para agradar ao seu cunhado, o cardeal D. Henrique, que se vira excluído da regência, D. Catarina patrocina junto do papa a criação de uma Universidade em Évora (1559), "cujo governo e direção estivessem à conta da Companhia de Jesus", e obtém também de Roma a extensão da Inquisição do Oriente com o estabelecimento de um tribunal em Goa.

Mas, embora irmanados pelo fanatismo religioso, o cardeal e a sua cunhada iam travando entre bastidores uma luta de intrigas, o primeiro despeitado por lhe não ter sido confiada a regência, a segunda receosa de que lha tirassem. E, como ambos desejavam manter o seu ascendente sobre o pequeno rei, a discórdia começa a manifestar-se aquando da escolha dos seus mestres. Após o seu nascimento, D. Sebastião fora confiado aos cuidados de D. Aleixo de Meneses, velho português de lei que combatera em África e na Índia, e a sua irmã D. Joana de Meneses. Os aios não tinham sido recebidos com grande agrado, dada a avançada idade de D. Aleixo; mas o que ferira a sensibilidade patriótica de muitos fora a designação espanhola de sumilheres de cortina dada aos fidalgos que, sob a direção de D. Aleixo, serviam semanalmente o rei.

Quanto à escolha de seus mestres as opiniões dividem-se em conselho régio: propõem uns um "secular de mediana condição", outros um sacerdote nobre, mas D. Catarina e o cunhado preferem um sacerdote, divergindo contudo na ordem a que deviam pertencer: D. Catarina propõe dois regulares castelhanos, D. Henrique um jesuíta português; cedendo às instâncias do seu confessor jesuíta, D. Catarina acaba por aceitar o nome do padre Luís Gonçalves da Câmara, jesuíta de rara cultura humanista, que nas suas lições é ajudado pelo padre Amador Rebelo; para confessor é escolhido Frei Luís Montoya.

O último ano de regência de D. Catarina foi marcado pelo espetáculo consolador do ímpeto de patriotismo provocado pelo ataque mouro à praça de Mazagão que, com Ceuta e Tânger, constituía todo o nosso património no Norte de África. À notícia do cerco posto à cidade por cento e cinquenta mil inimigos é tal a afluência de voluntários que desejavam partir em seu socorro que a regente se vê obrigada a proibir a saída de muitos. Após uma heróica defesa de 65 dias o inimigo levanta o sítio, tendo perdido mais de 25 mil homens.

O Concílio de Trento, que, interrompido desde 1552, reabre em 1562 com a presença de novos delegados portugueses, entre eles Frei Bartolomeu dos Mártires, festeja solenemente a notícia de tal vitória. Nesse mesmo ano, perante as cortes reunidas em Lisboa, D. Catarina, que já em 1560 simulara querer abandonar a regência, renuncia definitivamente a ela, continuando todavia como tutora do seu neto. Em 23 de Dezembro de 1562 as cortes confiam a regência ao cardeal, até que D. Sebastião completasse 14 anos.

Eram tão raras, nos tempos de absolutismo que iam correndo, as ocasiões de a voz da grei se fazer ouvir, que foi com alvoroço que ela aproveitou o ensejo das cortes para traduzir a sua inquietação patriótica: a intangibilidade do património nacional, a educação do rei que era sua garantia e o problema da sucessão foram objeto de vários capítulos: que se acabasse com a Universidade de Coimbra, se necessário fosse, e se aplicassem as suas rendas à defesa do património africano, que se tirasse D. Sebastião dentre as mulheres apenas atingisse 9 anos e se confiasse a homens, mais novos do que D. Aleixo, e que se tratasse, desde logo, do casamento de D. Sebastião em França; e, embora fossem conhecidos os sentimentos patrióticos do cardeal e os seus para com as pretensões de Filipe II, as cortes, olhando à idade do regente, lembram-lhe que nomeie um Conselho de Estado de doze membros, não estrangeiros.

A crise nacional, embora não revestindo ainda o aspeto trágico que revestirá após Alcácer-Quibir, era já suficientemente grave para que lhe acudisse uma mão forte que infelizmente faltava: a audácia dos corsários franceses chega ao extremo de, em 1566, desembarcarem na ilha da Madeira, pondo-a a saque durante duas semanas; por sua vez, os corsários ingleses, apesar da proibição da sua rainha Isabel, continuavam a arruinar o comércio da Mina.

Dois sentimentos profundos dominavam a alma do velho cardeal, o seu patriotismo insuspeito e o seu fanatismo religioso, tão grande este que é Portugal o único país a cumprir integralmente os decretos do Concílio de Trento que se encerrara a 4 de Dezembro de 1563; tão grande mesmo que nunca perdoará a seu sobrinho D. António, prior do Crato, filho bastardo do infante D. Luís e de Violante Gomes, o ter abandonado a vida eclesiástica a que se destinara. E esse ódio ao sobrinho irá tão longe que nos últimos meses da sua vida o levará a inclinar-se para a candidatura de Filipe II, de Castela, só para frustrar a de D. António.

Em 20 de Janeiro de 1568, dia em que completava 14 anos, D. Sebastião toma conta do governo.

De saúde precária, sofrendo desde os 11 anos de uma doença, purgação, que leva os médicos a recear que não pudesse vir a ter filhos, se é que não era mesmo impotente, sujeito a vertigens violentas e calafrios, D. Sebastião albergava em tal corpo uma alma dominada por duas grandes paixões: a guerra e o zelo religioso que o leva a considerar como sua principal obrigação de rei o fazer muita cristandade; escrevendo a D. Luís de Ataíde, vice-rei da Índia, sobre assuntos do seu governo, o que mais lhe interessa é saber "quantos baptismos solenes se fizeram"; indo mais longe ainda que o cardeal D. Henrique na sua política religiosa, não só ratifica, em 1569, as decisões do Concílio de Trento, como autoriza os bispos a usarem da nova autoridade que esse concílio lhes concedera, embora em prejuízo da jurisdição real; a matança de S. Bartolomeu em França (1572) é por ele festejada com júbilo, partindo para Paris um embaixador extraordinário a felicitar Carlos IX; os autos-de-fé eram um dos seus espetáculos favoritos.

Igual senão maior que o zelo religioso do rei era a sua obsessão guerreira, que encontrava no aio e no mestre, que tinham vivido em África, e no povo, que vira com desgosto a política de abandono de D. João III, um eco favorável. E a má ventura de D. Sebastião e do reino quis que no seu ânimo essas paixões não encontrassem o correctivo de outros sentimentos equilibrados e sadios. O seu egocentrismo, a sua inabalável convicção de que em tudo era o primeiro, estando reservado para altos destinos, a sua impulsividade, o seu ascetismo que degenera em misogenismo, não ousando levantar sequer os olhos para as damas, não encontraram também o correctivo de uma influência exterior que os moderasse. Vai-se a pouco e pouco libertando da influência da avó e do próprio confessor e em Conselho, que faz reunir não para o ouvir mas para lhe comunicar as suas decisões, raros são os que ousam contrariar a sua opinião.

A prática de exercícios violentos, como a caça e a equitação, treino indispensável para a guerra, é a sua ocupação favorita. Em 1572 esse seu íntimo desejo parece prestes a realizar-se: o papa Pio V convida-o a entrar numa liga contra os turcos e imediatamente D. Sebastião prepara uma frota; a sua impaciência guerreira é tanta que propõe em Conselho que se dê em Lisboa o falso alarme da entrada de uma esquadra inimiga só para ter ocasião de ver como as companhias de Ordenanças acodem em defesa da cidade; Lisboa teria vivido horas de pânico indescritível, se o Conde de Vila-Nova não tivesse ousado mostrar-lhe os horrores de um tal pânico.

A morte de Pio V fez abortar o projeto da liga; mas não importa, partirá para a Índia na esquadra preparada! Felizmente uma tempestade destruiu os 30 navios.

A sua impulsividade guerreira volta-se para África, não para repetir as insignificantes pelejas dos capitães com que seu aio tinha deslumbrado sua meninice, mas para nela deixar marcada para sempre, como façanha que a sua imaginação confusa não vislumbrava bem qual fosse, a sua passagem de predestinado. Em 1574, após o envio de tropas sob o comando de D. António, prior do Crato, nomeado governador de Tânger, o rei parte de Cascais com três galés e, chegado a Lagos, escreve à avó e ao cardeal, que já não tinham mão nele, dizendo-lhes que ia passar à África e ordena às vilas e cidades que urgentemente concentrem em Tavira o maior número possível de armas e cavalos. De Ceuta, onde chega a 24 de Agosto, passa a Tânger e por lá se demora sem ao certo saber que façanha realizar, não ouvindo os conselhos daqueles que lhe dizem a louca temeridade de arriscar a sua vida, sem forças suficientes, e castigando mesmo aqueles que ousam contrariá-lo: o dr. António Pinheiro, que consigo levara para celebrar as suas vitórias, é imediatamente destituído do seu bispado só porque ousa dar-lhe conselhos de prudência. A recusa de Filipe II em permitir a saída da Andaluzia de trigo e cavalos e a ameaça da avó, que o previne que irá ela própria para seu lado, a correr todos os perigos da aventura, obrigam D. Sebastião a regressar. Mas no próprio regresso se revela a sua impulsividade doentia; não por terra, mas numa galé, seguida por toda a esquadra do Algarve que uma violenta tempestade obriga a arribar a Setúbal, é que o rei entra por fim na capital.

Não eram grandes as simpatias que desfrutava no reino quem assim jogava com seu destino. Já quando da sua visita a Coimbra em 1569, o rei fora acolhido com pasquins cheios de alusões à sua repugnância pelo casamento e ao predomínio dos jesuítas; agora, após o seu regresso de África, é tal a onda de censura que contra ele se levanta que se vê obrigado a escrever uma relação da sua viagem, tentando convencer todos que fora apenas uma visita de inspecção, não uma empresa de conquista.

Mas sua má sorte e do reino ia dar-lhe em breve pretexto para o desencadear da sua obsessão guerreira: Muley Maluco destrona em 1575, com o auxílio do sultão da Turquia, seu sobrinho Muley Hamet, do xerifado de Marrocos. O pretexto estava encontrado; se Muley Maluco conquistasse Marrocos inteiro com o auxílio dos turcos, podiam estes, partindo do porto de Larache, atacar as costas da península e dificultar o comércio da Guiné, Oriental e Brasil; convinha pois auxiliar Muley Hamet e conquistar de passagem a cidade de Larache. São estas as razões com que D. Sebastião tenta convencer seu tio, Filipe II, a uma ação militar comum, no encontro que com ele teve no célebre santuário de Guadalupe, nos fins de Dezembro de 1576; em vão Filipe II, apoiado pelo seu velho general, o duque de Alba, lhe faz ver que o perigo não era iminente, pois Larache estava longe demais para que o sultão da Turquia, em luta nesse momento contra os persas, a viesse atacar. Mas, não desejando desagradar a seu sobrinho, Filipe II acaba por prometer, caso os turcos não o atacassem a ele na Itália, o auxílio de 50 galés e 5 000 homens, com a condição porém de que a expedição deveria comportar um corpo de 15 000 homens e realizar-se no prazo de oito meses; tais condições, impossíveis de cumprir dada a situação militar e financeira do reino, obrigariam o sobrinho, pensava o monarca espanhol, a desistir do seu perigoso intento.

De facto, em Julho de 1577, prestes a terminar o prazo, o rei vê-se obrigado a adiar a expedição para Março do ano seguinte. Tudo faltava, homens, munições e mantimentos, apesar dos meios extremos empregues para arranjar dinheiro. A obsessão da guerra vence o seu fanatismo e o seu misoginismo: negoceia com os cristãos-novos um auxílio de 240 mil cruzados e assim como não hesitara, a despeito do seu horror ao casamento, em pedir a Filipe II a mão da sua filha primogénita Isabel Clara Eugénia para o dispor a seu favor, também não hesita agora, levado pela necessidade de dinheiro, em encarregar o embaixador em Roma de indagar se o grão-duque de Florença ainda consentiria, como anos atrás, em dar-lhe sua filha em casamento com um grande dote.

Os meses vão passando sem que as dificuldades acumuladas, nem o desaparecimento dos pretextos para a guerra, o demovam da sua ideia; Filipe II desobrigou-se com o pretexto da revolta da sua província, os Países-Baixos, Larache é-lhe oferecida pelo seu governador, partidário de Muley Hamet, Muley Maluco apresenta mais de uma proposta de paz e amizade, Filipe II e o duque de Alba insistem para que renuncie à expedição, o cardeal e D. Catarina suplicam-lhe que não se exponha a si e ao reino, lembrando-lhe que não tem filhos, a Câmara de Lisboa faz ouvir também a sua voz no mesmo sentido. A todos o rei opõe a sua obstinada intenção, quando não a sua cólera de pequeno déspota contrariado.

Os preparativos militares arrastam-se pelo ano de 1578, destacamentos estrangeiros, de alemães, holandeses e italianos recrutados para a expedição vão-se juntando em Lisboa, sem que as susceptibilidades religiosas do rei se sentissem melindradas com esse auxílio de milhares de hereges; dentro do reino, o recrutamento de quatro terços de 3000 homens fora feito quase à força, tal a impopularidade da expedição, e os homens vão partir com um treino militar insuficiente, privados de armamento quase até à hora do embarque. Mas a loucura de D. Sebastião torna-se epidémica; levados pela febre da aventura, dois mil fidalgos pobres constituem o Terço dos aventureiros, cujo comando será confiado a Cristóvão de Távora, valido do rei; os ricos imitam o seu rei, no luxo doentio com que se preparam para a partida: há quem leve consigo cinquenta criados de libré e tendas de seda viva para armar em África.

A 25 de Julho de 1578 saía do Tejo a armada de 800 navios, levando o rei D. Sebastião no camarim da sua galé, cuja popa, toda cosida em ouro, custara mais de 8000 cruzados, a espada e o escudo de D. Afonso Henriques que pedira ao Mosteiro de Santa Cruz; na sua comitiva seguia, para o sublimar em epopeia, um poeta, Diogo Bernardes. E o rei partia sem ao menos designar sucessor, como a Câmara de Lisboa e o Conselho de Estado lhe tinham pedido. Afastando propositadamente da regência o cardeal D. Henrique, limitara-se a nomear para governadores do reino o arcebispo de Lisboa, D. Jorge de Almeida, Pedro de Alcáçova Carneiro, D. João de Mascarenhas e Francisco de Sá de Meneses.

Nunca fora possível convencê-lo a casar-se; as complicadas negociações diplomáticas para o seu casamento com diferentes princesas, Margarida de Valois, Isabel de Áustria, Maximiana da Baviera, Isabel Clara Eugénia, nunca tinham encontrado da parte de D. Sebastião o menor entusiasmo. "Falar-lhe em casamento era falar-lhe na morte", dizia um embaixador espanhol.

A partir da sua chegada à África a louca temeridade do rei começa a revestir aspetos tais que alguns fidalgos acabarão por pensar em prendê-lo. "Padre, chega a dizer o barão de Alvito, a Frei Luís da Silva, provincial de S. Domingos, porque não prendemos a este homem que nos deita a perder por seu gosto?". Ao expor em Conselho o seu plano de campanha todos compreendem que a conquista de Larache é apenas um pretexto e que a verdadeira intenção de D. Sebastião é ir ao encontro de Muley Maluco; ainda pouco antes da partida da expedição, D. Duarte de Meneses, governador de Tânger, se oferecera para, apenas com quatro mil homens, tomar e fortificar Larache. O rei recusara.

Agora, quando tudo aconselhava que se atacasse Larache por mar, o rei decide o ataque por terra. Embora discordando, os membros do Conselho não ousam contrariar D. Sebastião e apenas Vasco da Silveira, coronel do Terço do Algarve, e o conde de Vimioso lhe dizem os perigos a que vai expor o Exército. Por mar segue apenas Diogo de Sousa, capitão-mor da armada, mas com a ordem expressa de não atacar a cidade, não fosse dar-se o caso de alguém, que não o rei, pudesse alcançar qualquer vitória. Partindo a 29 de Julho de Arzila, o Exército acampa, em 3 de Agosto, para além já do ponto da estrada em que se fazia a bifurcação para Larache e Alcácer-Quibir, em direção desta última cidade. A marcha de dezassete mil combatentes, arrastando atrás de si o peso morto de oito mil não combatentes, criados, boieiros, mulheres de má nota, fora tão difícil que muitos tinham abandonado as armas pelo caminho. Tinham sido inúteis todos os pedidos para que o Exército, esgotado quase de mantimentos, voltasse para trás ou pelo menos tomasse a direção de Larache. D. Sebastião já não ocultava o seu verdadeiro intento de ir dar combate a Muley Maluco, que acampara com os seus quarenta mil cavaleiros a seis quilómetros de Alcácer-Quibir. Inúteis foram também todos os pedidos para que, aproveitando a excelente posição ocupada pelo Exército entre o Rio Mucazim e o seu afluente Rur, o rei demorasse o ataque, pois Muley Maluco, ferido de doença mortal, estava quase agonizante.

Na madrugada de 4 de Agosto, D. Sebastião manda dispor o Exército em ordem de batalha; ladeada a Infantaria pelos esquadrões dos cavaleiros, o da esquerda sob o comando do rei, o da direita sob o comando do duque de Aveiro, o Exército avança de encontro ao inimigo, que disposto em crescente a pouco e pouco o ia envolvendo. Que ninguém atacasse sem sua ordem expressa, ordenara o rei e a fatalidade quis que nesse momento decisivo, talvez por uma ausência de epiléptico, dos lábios do rei a ordem nunca mais saísse. Já a Artilharia inimiga começara a lançar o pânico entre os terços dos soldados inexperientes, já os mais exaltados clamavam contra a inação suicida a que D. Sebastião os condenava, quando o terço dos aventureiros que ocupava o centro da vanguarda avança sem esperar mais e só então o rei desperta e avança também com o seu esquadrão, esquecendo-se porém de enviar a ordem de avanço ao restante Exército.

O ímpeto dos aventureiros é tal que a vanguarda inimiga recua e debanda; para a deter, Muley Maluco, embora agonizante, monta a cavalo uma última vez e morre com o esforço momentos depois, sendo contudo sua morte ocultada. Foi tal o ímpeto dos aventureiros que a notícia da derrota dos mouros chega a Alcácer e até a Fez. Mas a fatalidade perseguia-nos! Ferido o seu capitão, Álvaro Pires de Távora, o sargento-mor dos aventureiros, para moderar seu ímpeto heróico, brada: ter, ter; hesitantes um momento e longe já do restante Exército pela sua arrancada gloriosa, os aventureiros em vão tentam abrir caminho no mar de inimigos que em sua volta se formara.

Sem uma direção superior e única, cada qual passa a realizar, inutilmente, prodígios de valor; a batalha dos três reis, começada às nove horas da manhã, termina quatro horas depois com a mais completa das derrotas: só da alta nobreza ficaram mortos no campo mais de 200 e muitos mais ainda foram os prisioneiros. O corpo de D. Sebastião, que durante a batalha mudara quatro vezes de cavalo e que a Fernando de Mascarenhas, que lhe perguntara no auge dela o que havia a fazer, respondera "Fazer o que eu faço, combater", é encontrado, mais de 24 horas após a morte, pelo seu moço de guarda-roupa, Sebastião de Resende, completamente nu, pois a gente das aldeias vizinhas viera agravar o horror da derrota com a pilhagem. Reconhecido pelos fidalgos prisioneiros, o seu corpo, coberto de feridas, é levado para Alcácer-Quibir e sepultado na presença do corregedor Belchior do Amaral. Só dará entrada na Batalha em 1582.

Por Newton de Macedo, em História de Portugal, Volume IV

Fundador
Administrador

Mensagens : 1615

Voltar ao Topo Ir em baixo

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Voltar ao Topo

- Tópicos similares

Permissão deste fórum:
Você não pode responder aos tópicos neste fórum