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Pensamentos de Nietzsche

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Re: Pensamentos de Nietzsche

Mensagem por Fundador em 16th Setembro 2011, 18:59

Aprender a ver

Aprender a ver - habituar os olhos à calma, à paciência, ao deixar-que-as-coisas-se-aproximem-de-nós; aprender a adiar o juízo, a rodear e a abarcar o caso particular a partir de todos os lados. Este é o primeiro ensino preliminar para o espírito: não reagir imediatamente a um estímulo, mas sim controlar os instintos que põem obstáculos, que isolam. Aprender a ver, tal como eu o entendo, é já quase o que o modo afilosófico de falar denomina vontade forte: o essencial nisto é, precisamente, o poder não «querer», o poder diferir a decisão. Toda a não-espiritualidade, toda a vulgaridade, descansa na incapacidade de opor resistência a um estímulo - tem de se reagir, seguem-se todos os impulsos. Em muitos casos, esse ter de é já doença, decadência, sintoma de esgotamento, quase tudo o que a rudeza afilosófica designa com o nome de «vício» é apenas essa incapacidade fisiológica de não reagir. Uma aplicação prática do ter-aprendido-a-ver: enquanto discente em geral, chegar-se-á a ser lento, desconfiado, teimoso. Ao estranho, ao novo de qualquer espécie, deixar-se-o-á aproximar com uma tranquilidade hostil, afasta-se dele a mão. O ter abertas todas as portas, o servil abrir a boca perante todo o facto pequeno, o estar sempre disposto a meter-se, a lançar-se de um salto para dentro de outros homens e outras coisas, em suma, a famosa «objetividade» moderna é mau gosto, é algo não aristocrático par excellence.

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Re: Pensamentos de Nietzsche

Mensagem por Fundador em 5th Outubro 2011, 00:16

Fugir ao desconhecido

Existe, frequentemente, em suma, uma espécie de humildade receosa, que, quando nos aflige, nos torna para sempre impróprios para as disciplinas do conhecimento. Porque, no momento em que o homem que a transporta descobre uma coisa que o choca, dá meia volta, seja como for, e diz consigo: «Enganaste-te! Onde é que tinhas a cabeça? Isso não pode ser verdade!» De forma que em vez de examinar mais de perto e de ouvir com mais atenção, desata a fugir completamente aterrado, evita encontrar aquilo que o choca e procura esquecê-lo o mais depressa possível. Porque eis o que diz a sua lei: «Não quero dizer nada que contradiga a opinião corrente. Serei eu feito para descobrir novas verdades? Já há demasiadas antigas.»

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Re: Pensamentos de Nietzsche

Mensagem por Fundador em 5th Outubro 2011, 00:40

A sabedoria do corpo

Tu dizes «eu» e orgulhas-te desta palavra. Mas há qualquer coisa de maior, em que te recusas a acreditar, é o teu corpo e a sua grande razão; ele não diz Eu, mas procede como Eu.

Aquilo que a inteligência pressente, aquilo que o espírito reconhece, nunca em si tem o seu fim. Mas a inteligência e o espírito quereriam convencer-te que são o fim de todas as coisas; tal é a sua soberba. Inteligência e espírito não passam de instrumentos e de brinquedos; o Em si está situado para além deles. O Em si informa-se também pelos olhos dos sentidos, ouve também pelos ouvidos do espírito. O Em si está sempre à escuta, alerta; compara, submete; conquista, destrói. Reina e é também soberano do Eu.

Por detrás dos teus pensamentos e dos teus sentimentos, meu irmão, há um senhor poderoso, um sábio desconhecido: chama-se o Em si. Habita no teu corpo, é o teu corpo.

Há mais razão no teu corpo do que na própria essência da tua sabedoria. E quem sabe porque é que o teu corpo necessita da essência da tua sabedoria?

Assim Falou Zaratustra

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Re: Pensamentos de Nietzsche

Mensagem por Fundador em 6th Outubro 2011, 22:55

As nossas verdades

A aprendizagem transforma-nos, faz o mesmo que toda a alimentação que também não «conserva» apenas: como sabe o fisiólogo. Mas no fundo de nós mesmos, muito «lá no fundo», há, na verdade, qualquer coisa rebelde a toda a instrução, um granito de fatum espiritual, de decisões predestinadas e de resposta a perguntas escolhidas e pré-formuladas. A cada problema fundamental ouve-se inevitavelmente dizer «isso sou eu»; por exemplo, a respeito do homem e da mulher, um pensador não pode aprender nada de novo, mas apenas aprender até ao fim, prosseguir até ao fim na descoberta do que, para ele, era «coisa assente» a esse respeito. Encontram-se por vezes certas soluções de problemas que alimentam precisamente a nossa grande fé; talvez de ora em diante lhes chamemos as nossas «convicções».

Mais tarde, só se verá, nessas convicções, pegadas que conduzem ao autoconhecimento, indicadores que conduzem ao problema que nós somos, ou mais exatamente, à grande estupidez que somos, ao nosso fatum espiritual, ao incorrigível, que se encontra totalmente «lá no fundo». Depois dessa atitude simpática que acabo de assumir em relação a mim próprio, talvez me seja mais facilmente permitido dizer francamente algumas verdades sobre «a mulher em si»: uma vez que agora já se sabe de antemão que são apenas as minhas verdades.

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Re: Pensamentos de Nietzsche

Mensagem por Fundador em 6th Outubro 2011, 23:03

A eterna criança

Com a força do seu olhar inteletual e da sua penetração espiritual cresce a distância e, de certo modo, o espaço que circunda o homem: o seu mundo torna-se mais profundo, avistam-se continuamente estrelas novas, imagens novas e novos enigmas. Talvez tudo aquilo em que o olhar do espírito exercitou a sua sagacidade e profundeza tenha sido apenas um pretexto para este exercício, um jogo e uma criancice e infantilidade. E talvez um dia os conceitos mais solenes, os que provocaram maiores lutas e maiores sofrimentos, os conceitos de «Deus» e do «pecado», não signifiquem, para nós, mais do que um brinquedo e um desporto de criança significam para um velho, e talvez o «velho homem» tenha, então, necessidade de um outro brinquedo ainda e de um outro desgosto, por continuar a ser muito criança, eterna criança!

Para Além do Bem e do Mal

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Re: Pensamentos de Nietzsche

Mensagem por Fundador em 6th Outubro 2011, 23:13

O homem bem constituído

Como é que se reconhece, no fundo, uma boa constituição? Em que um homem bem constituído agrada aos nossos sentidos; no ter sido talhado na madeira ao mesmo tempo mais dura e preciosa. Convém-lhe só o que o favorece: o agrado, o prazer, cessam nele quando a medida do suportável é ultrapassada. Adivinha remédios contra o que é prejudicial, desfruta em seu proveito dos casos nocivos; o que o não mata, favorece-o. Faz instintivamente uma síntese de tudo quanto vê, ouve e vive; é um princípio seletivo, e assim deixa cair muitas coisas. Encontra-se sempre no seu próprio mundo, sejam livros, homens ou paisagens; honra enquanto escolhe, enquanto admite, enquanto confia. Reage lentamente a todo o estímulo, com aquela lentidão para que o prepararam a longa prudência e o orgulho bem consciente; sente o encanto próprio de tudo quanto dele se aproxima mas está longe de ir ao seu encontro. Não crê nem em «desgraça» nem em «culpa»; sente-se de bem consigo, com os outros, sabe esquecer - é forte bastante para que tudo se realize com o melhor proveito para ele.

Ecce Homo

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Re: Pensamentos de Nietzsche

Mensagem por Fundador em 17th Outubro 2011, 16:21

Culpabilidade

O estado de pecado no homem não é um facto, senão apenas a interpretação de um facto, a saber: de um mal-estar fisiológico, considerado sob o ponto de vista moral e religioso. O sentir-se alguém «culpado» e «pecador» não prova que na realidade o esteja, como sentir-se alguém bem não prova que na realidade esteja bem. Recordem-se os famosos processos de bruxaria; naquela época os juízes mais humanos acreditavam que havia culpabilidade; as bruxas também acreditavam; contudo, a culpabilidade não existia.

Genealogia da Moral

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Re: Pensamentos de Nietzsche

Mensagem por Fundador em 17th Outubro 2011, 16:31

O criminoso e o que lhe é afim

O tipo do criminoso é o tipo do homem forte colocado em condições desfavoráveis, um homem forte posto enfermo. O que lhe falta é a selva virgem, uma natureza e uma forma de existir mais livres e perigosas, nas quais seja legítimo tudo o que no instinto do homem forte é arma de ataque e de defesa. As suas virtudes foram proscritas pela sociedade: os seus instintos mais enérgicos, que lhe são inatos, misturam-se imediatamente com os efeitos depressivos, com a suspeita, o medo, a desonra. Mas esta é quase a fórmula da degeneração fisiológica. Quem tem de fazer às escondidas, com uma tensão, uma previsão, uma angústia prolongadas, aquilo que melhor pode fazer, o que mais gosta de fazer, torna-se forçosamente anémico; e como a única colheita que obtém dos seus instintos é sempre perigo, perseguição, calamidades, também o seu sentimento se vira contra esses instintos - sente-os como uma fatalidade. É assim na nossa sociedade, na nossa domesticada, medíocre, castrada, sociedade onde um homem vindo da natureza, chegado das montanhas ou das aventuras do mar degenera necessariamente em criminoso.

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Re: Pensamentos de Nietzsche

Mensagem por Fundador em 19th Outubro 2011, 15:55

Deveres virtuosos

Os nossos hábitos tornam-se virtudes graças a uma transposição livre no domínio do dever, pelo facto de trazermos a inviolabilidade nos conceitos; os nossos hábitos tornam-se virtudes pelo facto de acharmos menos importante o bem particular que a sua inviolabilidade - por consequência pelo sacrifício do indivíduo ou pelo menos pela possibilidade entrevista de um tal sacrifício. Quando o indivíduo se considera pouco importante começa o domínio das virtudes e das artes - o nosso mundo metafísico. O dever seria particularmente puro se na essência das coisas nada correspondesse ao facto moral.

O Último Filósofo

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Re: Pensamentos de Nietzsche

Mensagem por Fundador em 19th Outubro 2011, 16:00

A dialética é o último recurso

A dialética só se adota quando não se pode utilizar nenhum outro meio. Sabe-se que com ela se inspira desconfiança, que ela persuade pouco. Nada é mais fácil de suprimir que o efeito de um dialético: a experiência de toda a reunião em que haja discursos prova-o. A dialética só pode ser um recurso coagido nas mãos dos que não têm já outras armas. É preciso que se tenha de conseguir pela força os próprios direitos: antes não se faz nenhum uso dela.

Crepúsculo dos Ídolos

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Re: Pensamentos de Nietzsche

Mensagem por Fundador em 19th Outubro 2011, 16:10

Cultura

É um fenómeno eterno: a ávida vontade vai sempre encontrar um meio de fixar as suas criaturas na vida através de uma ilusão espalhada sobre as coisas, forçando-as a continuar a viver. Este vê-se amarrado pelo prazer socrático do conhecimento e pelo prazer do poder, através do mesmo, curar a eterna ferida da existência; aquele vê-se envolvido pelo véu sedutor da arte ondeando diante dos seus olhos; aquele, por seu turno, pela consolação metafísica de que sob o remoinho dos fenómenos continua a fluir, imperturbável, a vida eterna: para não falar das ilusões mais comuns, e talvez mais vigorosas, que a vontade tem preparadas em qualquer instante.

Aqueles três níveis de ilusão destinam-se apenas às naturezas mais nobremente apetrechadas, nas quais a carga e o peso da existência são em geral sentidos com um desagrado mais profundo e que podem ser ilusoriamente desviadas desse desagrado através de estimulantes selecionados. É nestes estimulantes que consiste tudo o que chamamos cultura.

A Origem da Tragédia

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Re: Pensamentos de Nietzsche

Mensagem por Fundador em 22nd Outubro 2011, 17:17

Os doentes são o maior perigo da humanidade

Se tão normal é o homem em estado morboso, tanto mais se devem estimar os raros exemplos de potência física e corporal, os acidentes felizes da espécie humana, e tanto mais se devem ser preservados do ar infecto os seres robustos. Faz-se assim?...

Os doentes são o maior perigo para os sãos; daqueles vêm todos os males. Já se reparou suficientemente nisto?... Decerto se não deve desejar que diminua a violência entre os homens; porque esta violência obriga os homens a serem fortes e mantém na sua integridade o tipo do homem robusto. O temível e desastroso é o grande tédio do homem e a sua grande compaixão. Se algum dia estes elementos se unirem, darão à luz irremissivelmente a monstruosa «última» vontade, a sua vontade do nada, o niilismo.

E efetivamente tudo está já preparado para este fim. Os que têm olhos, ouvidos, nariz, percebem por todos os lados a atmosfera de um manicómio e de um hospital, em todas as partes do mundo civilizado, europeizado. Os doentes são o maior perigo da humanidade; não os maus, não as «feras de rapina». Os desgraçados, os vencidos, os impotentes, os fracos, são os que minam a vida e envenenam e destroem a nossa confiança. Como escapar a este olhar triste e concentrado dos homens incompletos? Este olhar é um suspiro que diz: «Ah! Se eu pudesse ser outro! Mas não há esperança: sou o que sou; como poderia libertar-me de mim próprio? Estou cansado de mim próprio!...»

Neste terreno pantanoso de desprezo de si mesmo cresce esta ruim erva, esta planta venenosa, pequena, oculta e adocicada. Aqui formigam os vermes do ódio e do rancor: o ar está impregnado de miasmas desconhecidos: aqui se atam sem cessar os fins de uma conjuração indigna: a conjuração dos doentes contra os robustos e os triunfantes; aqui se aborrece até o próprio aspeto do triunfador.

Genealogia da Moral

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Re: Pensamentos de Nietzsche

Mensagem por Fundador em 22nd Outubro 2011, 17:23

Dificultar equivale a facilitar e inversamente

Muita coisa que, em certas fases do homem, lhe dificulta a vida serve, numa fase superior, para lha facilitar, porque esses homens aprenderam a conhecer maiores complicações da vida. O inverso sucede igualmente: é assim, por exemplo, que a religião tem um duplo rosto, conforme uma pessoa ergue para ela o olhar, para que ela o livre da sua cruz e das suas penas, ou baixa para ela o olhar como para as cadeias que lhe foram postas, a fim de que não suba pelos ares demasiado alto.

Humano, Demasiado Humano

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Re: Pensamentos de Nietzsche

Mensagem por Fundador em 22nd Outubro 2011, 17:42

A consciência

A consciência é a última fase da evolução do sistema orgânico, por consequência também aquilo que há de menos acabado e de menos forte neste sistema. É do consciente que provém uma multidão de enganos que fazem com que um animal, um homem, pereçam mais cedo do que seria necessário, «a despeito do destino», como dizia Homero. Se o laço dos instintos, este laço conservador, não fosse de tal modo mais poderoso que a consciência, se não desempenhasse, no conjunto, um papel de regulador, a humanidade sucumbiria fatalmente sob o peso dos seus juízos absurdos, das suas divagações, da sua frivolidade, da sua credulidade, numa palavra do seu consciente: ou antes, há muito tempo que teria deixado de existir sem ele!

Enquanto uma função não está madura, enquanto não atingiu o seu desenvolvimento perfeito, é perigosa para o organismo: é uma grande sorte que ela seja bem tiranizada! A consciência é-o severamente e não é ao orgulho que o deve menos. Pensa-se que este orgulho forma o núcleo do ser humano; que é o seu elemento duradouro, eterno, supremo, primordial! Considera-se que o consciente é uma constante! Nega-se o seu crescimento, as suas intermitências! É considerado como «a unidade do organismo»! Sobrestima-se, desconhece-se, ridiculamente, aquilo que teve a consequência eminentemente útil de impedir o homem de realizar o seu desenvolvimento com demasiada rapidez. Julgando possuir a consciência, os homens pouco se esforçaram para a adquirir; e hoje ainda estão nisso! Trata-se ainda de uma tarefa eminentemente atual, que o olho humano começa apenas a entrever, a de se incorporar o saber, de o tornar instintivo no homem; uma tarefa de que só se dão conta aqueles que compreenderam que até aqui o homem só incorporou o erro, que toda a nossa consciência se relaciona com ele.

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Re: Pensamentos de Nietzsche

Mensagem por Fundador em 24th Outubro 2011, 15:57

Prejudicar a estupidez

A reprovação do egoísmo, que se pregou com tamanha convicção casmurra, prejudicou certamente, no conjunto, esse sentimento (em benefício, hei-de repeti-lo milhares e milhares de vezes, dos instintos gregários do homem) e prejudicou-o, nomeadamente, no facto de o ter despojado da sua boa consciência e de lhe ter ordenado a procurar em si próprio a verdadeira fonte de todos os males. «O teu egoísmo é a maldição da tua vida», eis o que se pregou durante milénios: esta crença, como eu ia dizendo, fez mal ao egoísmo; tirou-lhe muito espírito, serenidade, engenhosidade e beleza; bestializou-o, tornou-o feio, envenenado.

Os filósofos antigos indicavam, ao contrário, uma fonte completamente diferente para o mar; os pensadores não cessaram de pregar desde Sócrates: «É a vossa irreflexão, a vossa estupidez, o vosso hábito de vegetar obedecendo à regra e de vos subordinar ao juízo do próximo, que vos impedem tão amiudadamente de serdes felizes; somos nós, pensadores, que o somos mais, porque pensamos.» Não nos perguntemos aqui se este sermão contra a estupidez tem mais fundamentos do que o sermão contra o egoísmo; o que é certo é que despojou a estupidez da sua boa consciência: estes filósofos foram prejudiciais à estupidez!

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Re: Pensamentos de Nietzsche

Mensagem por Fundador em 24th Outubro 2011, 16:10

Valor natural do egoísmo

O egoísmo vale o que valer fisiologicamente quem o pratica: pode ser muito valioso e pode carecer de valor e ser desprezível. É lícito submeter a exame todo o indivíduo para se determinar se representa a linha ascendente ou a linha descendente da vida. Quando se conclui a apreciação sobre este ponto possui-se também um cânone para medir o valor que tem o seu egoísmo. Se se encontra na linha ascendente, então o valor do seu egoísmo é efetivamente extraordinário e, por amor à vida no seu conjunto, que com ele progride, é lícito que seja mesmo levada ao extremo a preocupação por conservar, por criar o seu optimum de condições vitais. O homem isolado, o «indivíduo», tal como o conceberam até hoje o povo e o filósofo, é, com efeito, um erro: nenhuma coisa existe por si, não é um átomo, um «elo da cadeia», não é algo simplesmente herdado do passado, é sim a inteira e única linhagem do homem até chegar a ele mesmo... Se representa a evolução descendente, a decadência, a degeneração crónica, a doença (as doenças são já, de um modo geral, sintoma da decadência, não causas desta), então o seu valor é fraco e manda a mais elementar justiça que ele subtraía o menos possível aos bem constituídos. Ele não é mais do que o parasita destes...

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Re: Pensamentos de Nietzsche

Mensagem por Fundador em 26th Outubro 2011, 16:24

A má consciência como inibição dos instintos

A má consciência é para mim o estado mórbido em que devia ter caído o homem quando sofreu a transformação mais radical que alguma vez houve, a que nele se produziu quando se viu acorrentado à argola da sociedade e da paz. À maneira dos peixes obrigados a adaptarem-se a viver em terra, estes semianimais, acostumados à vida selvagem, à guerra, às correrias e aventuras, viram-se obrigados de repente a renunciar a todos os seus nobres instintos. Forçavam-nos a irem pelo seu pé, a «levarem-se a si mesmos», quando até então os havia levado a água: esmagava-os um peso enorme. Sentiam-se inaptos para as funções mais simples; neste mundo novo e desconhecido não tinham os seus antigos guias estes instintos reguladores, inconscientemente falíveis; viam-se reduzidos a pensar, a deduzir, a calcular, a combinar causas e efeitos. Infelizes! Viam-se reduzidos à sua «consciência», ao seu órgão mais fraco e mais coxo! Creio que nunca houve na Terra desgraça tão grande, mal-estar tão horrível!

Acrescente-se a isto que os antigos instintos não haviam renunciado de vez às suas exigências. Mas era difícil e amiúde impossível satisfazê-las; era preciso procurar satisfações novas e subterrâneas. Os instintos sob a enorme força repressiva volvem para dentro, a isto se chama interiorização do homem; assim se desenvolve o que mais tarde se há-de chamar «alma».

Aquele pequeno mundo interior vai-se desenvolvendo e ampliando à medida que a exteriorização do homem acha obstáculos. As formidáveis barreiras que a organização social construía para se defender contra os antigos instintos de liberdade e, em primeiro lugar, a barreira do castigo, conseguiram que todos os instintos do homem selvagem, livre e vagabundo, se voltassem contra o homem interior.

A ira, a crueldade, a necessidade de perseguir, tudo isto se dirigia contra o possuidor de tais instintos; eis a origem da «má consciência». O homem que, por falta de resistência e de inimigos exteriores, colhido no potro da regularidade dos costumes, se despedaçava com impaciência, se perseguia, se devorava, se amedrontava e se maltratava a ele mesmo; este animal a quem se quer domesticar, mas que se fere nos ferros da sua jaula; este ser a quem as privações fazem enlanguescer na nostalgia do deserto e que fatalmente devia achar em si mesmo um campo de aventuras, um jardim de suplícios, uma região perigosa e incerta; este louco, este cativo, de aspirações impossíveis, teve de inventar a «má consciência». Então veio ao mundo a maior e mais perigosa de todas as doenças, o homem doente de si mesmo foi consequência de um divórcio violento com o passado animal, de um salto para novas situações, para novas condições de existência, de uma declaração de guerra contra os antigos instintos que antes constituíam a sua força e o seu temível caráter.

Genealogia da Moral

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Re: Pensamentos de Nietzsche

Mensagem por Fundador em 27th Outubro 2011, 17:25

Os quatro erros

A educação do homem foi feita pelos seus erros: em primeiro lugar, ele nunca se viu senão imperfeitamente; em seguida, atribuiu-se qualidades imaginárias; em terceiro, sentiu-se em relações falsas diante da natureza e do reino animal; em quarto, nunca deixou de inventar tábuas do bem sempre novas e tomou cada uma delas durante um certo tempo como eterna e absoluta, de tal maneira que o primeiro lugar foi ocupado sucessivamente por este ou aquele instinto ou este ou aquele estado que enobrece esta apreciação. Ignorar o efeito destes quatro erros é suprimir a humanidade, o humanitarismo e a «dignidade humana».

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Re: Pensamentos de Nietzsche

Mensagem por Fundador em 27th Outubro 2011, 17:31

A complexidade do prazer e da dor

Todas as espécies de prazer ou de dor, por mais espontâneas que sejam, são resultantes de uma grande complexidade, nelas estão contidas: toda a nossa experiência e uma quantidade enorme de juízos de valor e de erros.

A intensidade da dor está longe de ser proporcional ao perigo que possa anunciar, como o nosso conhecimento dos factos comprova. O mesmo se dá quanto à intensidade do prazer, que não é proporcional ao estado do nosso conhecimento atual, mas sim ao conhecimento obtido nos longos períodos da humanidade primitiva e da animalidade. Nós estamos submetidos à lei do passado, ou seja: à lei das crenças e dos juízos de valor.

A Vontade de Poder

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Re: Pensamentos de Nietzsche

Mensagem por Fundador em 27th Outubro 2011, 17:46

Emancipação da mulher

Uma mulher que prossegue uma vingança venceria o próprio destino. A mulher é indiscutivelmente mais má que o homem e mais calculada; a bondade é nela forma de degenerescência. Em todas as chamadas «belas almas» há fundamentalmente um mal-estar fisiológico; e não digo tudo, pois, se o dissesse, converter-me-ia em médico clínico. A luta pela igualdade de direitos é já sintoma de doença: qualquer médico o sabe. Quanto mais a mulher for verdadeiramente mulher, tanto mais se defenderá com pés e mãos dos direitos em geral: o estado de natureza, a eterna guerra entre os sexos, assinala-lhe, sem embargo possível, o primeiro lugar.

«Emancipação da mulher» significa ódio instintivo da mulher infecunda contra a mulher fecunda; a luta contra o homem não passa de recurso, pretexto, tática. Ao elevar-se como «mulher em si», como «mulher superior», como «idealista», pretende fazer-se decair o nível geral da mulher, ocultar a sua situação própria; não há mais seguro processo de atingir isso do que o ensino liceal, o traje masculino, os direitos políticos e eleitorais. No fundo, as emancipadas são as anárquicas no mundo do «eterno feminino», as estéreis, nas quais o mais fundo instinto é a vingança...

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Re: Pensamentos de Nietzsche

Mensagem por Fundador em 28th Outubro 2011, 16:01

Dominar ou morrer

Uma espécie nasce, um tipo fixa-se e torna-se forte sob a longa luta com condições desfavoráveis essencialmente constantes. Inversamente, sabe-se pelas experiências dos criadores de gado que as espécies que foram superalimentadas e, de um modo geral, tiveram demasiada proteção e cuidados, logo tendem marcadamente para a variação de tipos e abundam em prodígios e monstruosidades (também em vícios monstruosos). Considere-se agora uma comunidade aristocrática, por exemplo uma antiga polis grega ou Veneza, como instituição voluntária ou involuntária, destinada à seleção: há ali homens convivendo dependentes uns dos outros e que querem impor a sua espécie, em geral porque se têm de impor ou de contrário correm o terrível risco de serem exterminados.

Para Além do Bem e do Mal

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Re: Pensamentos de Nietzsche

Mensagem por Fundador em 28th Outubro 2011, 16:17

A criação de Deus como travão aos instintos

Uma obrigação para com Deus: esta ideia foi porém o instrumento de tortura. Imaginou-se Deus como um contraste dos seus próprios instintos animais (do homem) e irresistíveis e deste modo transformou estes instintos em faltas para com Deus, hostilidade, rebelião contra o «Senhor», «Pai» e «Princípio do mundo» e, colocando-se galantemente entre «Deus» e o «Diabo», negou a Natureza para afirmar o real, o vivo, o verdadeiro Deus, Deus santo, Deus justo, Deus castigador, Deus sobrenatural, suplício infinito, inferno, grandeza incomensurável do castigo e da falta. Há uma espécie de demência da vontade nesta crueldade psíquica. Esta vontade de se achar culpado e réprobo até ao infinito; esta vontade de ver-se castigado eternamente; esta vontade de tornar funesto o profundo sentimento de todas as coisas e de fechar a saída deste labirinto de ideias fixas; esta vontade de erigir um ideal, o ideal de «Deus santo, santo, santo», para dar-se melhor conta da própria indignidade absoluta... Oh, triste e louca besta humana!

A que imaginações contranatura, a que paroxismo de demência, a que bestialidade de ideia se deixa arrastar, quando se lhe impede ser besta de ação!... Tudo isto é muito interessante, mas, quando se olha para o fundo deste abismo, sentem-se vertigens de tristeza enervante. Não há dúvida de que isto é uma doença, a mais terrível que tem havido entre os homens e aquele cujos ouvidos sejam capazes de ouvir, nesta negra noite de tortura e de absurdo, o grito de amor, o grito de êxtase e de desejo, o grito de redenção por amor, será presa de horror invencível... Há tantas coisas no homem que infundem espanto! Foi por tanto tempo a Terra um asilo de dementes!

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Re: Pensamentos de Nietzsche

Mensagem por Fundador em 15th Fevereiro 2012, 16:38

A moral falsificou toda a psicologia

Que nos meus escritos fala um psicólogo como nunca houve igual, essa é decerto a primeira intuição a que chega um bom leitor, um leitor digno de mim, que me leia como os bons velhos filólogos liam o seu Horácio. As proposições sobre as quais no fundo é unânime toda a gente – para não falar dos filólogos de fama mundial, dos moralistas, e de outros cabeças ocas ou cabeças de couve – aparecem nos meus escritos como formas de erro ingénuo: por exemplo, aquela crença de que «não egoísta» e «egoísta» são opostos, enquanto o próprio eu é simplesmente «mais alta vertigem», um «ideal»… Não há nem ações egoístas, nem ações não egoístas: ambos os conceitos são contra-sensos psicológicos. Contra-senso dizer: "O homem tende para a felicidade"… Ou "A felicidade é a recompensa da virtude"… Ou isto ainda: "Prazer e dor são opostos"… A Circe da humanidade, a moral, falsificou toda a psicologia do fundo ao topo – «moralizou-a» – até àquele horrível absurdo de que o amor deve ser alguma coisa de «não egoístico»… Quem não for consistente, quem são se segurar firmemente em ambas as pernas, não poderá amar. Muito bem o sabem as mulheres: para elas é um inferno tratar com homens desinteressados, com homens puramente objetivos.

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Re: Pensamentos de Nietzsche

Mensagem por Fundador em 15th Fevereiro 2012, 16:40

A cautela dos espíritos livres

Os homens de espírito livre, que vivem só para o conhecimento, em breve acharão ter alcançado a sua definitiva posição relativamente à sociedade e ao Estado e, por exemplo, dar-se-ão de bom grado por satisfeitos com um pequeno emprego ou com uma fortuna que chega à justa para viver; pois arranjar-se-ão para viver de maneira que uma grande transformação dos bens materiais, até mesmo um derrube da ordem política, não deite também abaixo a sua vida. Em todas essas coisas eles gastam a menor energia possível, de modo a poderem imergir, com todas as forças reunidas e, por assim dizer, com um grande fôlego, no elemento do conhecimento. Podem, assim, ter esperança de mergulhar profundamente e também de, talvez, verem bem até ao fundo.

De um dado acontecimento, um tal espírito pegará de bom grado só numa ponta: ele não gosta das coisas em toda a sua amplitude e superabundância das suas pregas, pois não se quer emaranhar nelas. Também ele conhece os dias de semana da falta de liberdade, da dependência, da servidão. Mas, de tempos a tempos, tem de lhe aparecer um domingo de liberdade, se não ele não suportará a vida. É provável que mesmo o seu amor pelos seres humanos seja cauteloso e com pouco fôlego, pois ele só quer meter-se no mundo das invejas e da cegueira na medida em que isso seja necessário à finalidade do conhecimento. Tem de confiar em que o génio da justiça dirá alguma coisa em favor do seu discípulo e protegido, se vozes acusadoras lhe vierem a chamar pobre de amor. Há na sua maneira de viver e de pensar um heroísmo refinado, que desdenha oferecer-se à grande veneração das massas, como o faz o seu irmão mais grosseiro, e que costuma andar pelo mundo e sair do mundo em silêncio. Sejam quais forem os labirintos que ele percorra, sejam quais forem os rochedos, por entre os quais a sua corrente tenha, de vez em quando, aberto passagem penosamente… assim que chega à luz, segue o seu curso, límpido, leve e quase sem ruído, e deixa brincar os raios do Sol até ao fundo do seu leito.

Humano, Demasiado Humano

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Re: Pensamentos de Nietzsche

Mensagem por Fundador em 15th Fevereiro 2012, 16:42

Cada um tem o seu conceito de felicidade

Muita gente só é capaz de uma felicidade reduzida: o facto de a sua sensatez não poder proporcionar-lhes mais felicidade não constitui um argumento contra ela, não mais do que se deve ver um argumento contra a medicina no facto de serem algumas pessoas incuráveis e outras sempre doentias. Que cada um possa ter a hipótese de encontrar justamente a concepção da vida que lhe permita realizar o seu máximo de felicidade: isso não impede necessariamente que a sua vida permaneça lastimável e pouco invejável.

Aurora

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