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Aurora

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Aurora

Mensagem por Fundador em 3rd Julho 2011, 22:27

Friedrich Nietzsche

1
Começa com este livro, a minha campanha contra a moral. Não que em si tenha o menor cheiro a pólvora. Bem pelo contrário, encontram-se nele todos os demais odores, compondo um aroma muito mais agradável, mesmo para quem tenha deficiência de olfato. Nem artilharia pesada, nem fogo de espingarda: seja embora negativo o efeito deste livro, não o são nitidamente os seus processos, dos quais se desprendem os corolários como conclusão lógica, não como fogo de barragem. Acabe-se a leitura com aguda desconfiança a respeito de tudo quanto se venerava e ainda de tudo quanto se adorava até ao presente sob o nome de moral, e, todavia, em todo o livro, não ocorre uma palavra de negação, nem um ataque, nem uma maldade; bem pelo contrário, ele estende-se, rotundo e feliz, como um animal marinho que toma o seu banho de sol entre os rochedos: quase todas as frases do livro, uma por uma, foram pensadas e como que pescadas nos mil labirintos desse caos de rochas situado nas proximidades de Génova, onde vivia sozinho e onde só com o mar tinha confidências. Ainda hoje, se acaso volto a tomar contato com aquelas páginas, é, para mim, cada frase como que uma linha de pesca puxando a qual me vem das profundidades algum ser estranho, inesperado, maravilhoso: toda a sua pele vibra de frémitos subtis e evocadores.

A arte que este livro apresenta não é vulgar de modo nenhum: pode apreender coisas que deslizam sem rumor, despercebidas, instantes que comparo a lagartos maravilhosos, e sabe picá-los num ponto, não como aquele jovem deus grego que comia, inocente, as sardaniscas, mas com intencional estilete acerado: a caneta do escritor... "Há tantas auroras que não despontaram ainda..." Esta inscrição indiana aparece na portada do meu livro. Onde busca o autor essa nova alvorada, esse rosicler suave e ainda invisível que anuncia um novo dia, oh!, toda uma sucessão, todo um mundo de novos dias? Numa transmutação de todos os valores por meio da qual o homem se emancipará dos valores morais até então aceites: dizendo «sim» a tudo quanto foi até hoje proibido, desvalorizado, maldito, e ousando pôr nisso a sua fé. Este livro afirmativo difunde sua luz, seu amor e seu carinho por todas as coisas más, e restitui-lhes a «alma», a boa consciência, o direito, e primacial direito de existência. A moral não é atacada, ela deixa simplesmente de ser tida em conta... Este livro termina com um «Ou» - é o único livro do mundo que termina com «Ou»...

2
A minha tarefa de preparar à humanidade um instante de mais alta reflexão sobre si própria, um grande meio-dia em que possa olhar para trás e para muito além de si, em que se liberte do domínio do acaso e dos padres, e em que ponha, pela primeira vez, com plenitude, o problema do «porquê» e do «como»; tal tarefa procede necessariamente da intuição de que a humanidade não segue o seu caminho próprio, que ela não é orientada por um Deus, que, muito pelo contrário, sob as suas concepções dos valores mais sagrados se ocultava insidiosamente o instinto de decadência. O problema da genealogia dos valores morais é para mim problema de primeira importância, porque implica o do futuro da humanidade. A obrigação de acreditar que tudo se encontra nas melhores mãos, que um livro, a Bíblia, nos confere definitiva segurança sobre o governo divino, e estável sabedoria quanto aos destinos da humanidade, se a conferimos com a realidade patente, corresponde a pretender fazer calar a verdade que demonstra justamente o contrário: a humanidade esteve até agora nas piores mãos, foi governada pelos deserdados, a quem anima a sede de astuciosa vingança, os chamados «santos», caluniadores do mundo, que mancham a raça humana.

O sinal incontroverso de que o sacerdote (incluindo os padres mascarados, ou filósofos) se tornou senhor não só numa comunidade religiosa, mas de modo geral, e que a moral da decadência, a vontade do fim, passa por moral em si, está naquele absoluto de que sempre se reclamaram os não-egoístas e em nome do qual se perseguiam todos os egoístas. Quem neste ponto não está de acordo comigo, considero-o empestado... Mas é o mundo inteiro que não está de acordo comigo... Para um fisiologista, dúvida alguma tem uma tal contradição de valores. Quando, num organismo, determinado órgão, por mais modesto, se afasta da forma e ritmo peculiares, desviando-se da função própria, e assim, mesmo que seja em pequena medida, o conjunto se altera, logo o fisiologista exige a ablação do que degenerou, nega toda a solidariedade com essa parte, está bem longe de ter piedade dela. O sacerdote, porém, «quer» precisamente a degenerescência do conjunto da humanidade: eis porque conserva o que degenerou - e eis o seu processo de domínio...

Que sentido têm estas concepções enganadoras, estas concepções auxiliares da moral, «alma», «espírito», «livre-arbítrio», «Deus», senão o de arruinar fisiologicamente a humanidade?... Quando se põe de lado a importância da conservação de si mesmo, do aumento da energia somática, isto é, da vida; quando da consumpção mórbida, do desprezo do corpo, da «saúde da alma» se constrói um ideal - que outra coisa se faz senão uma receita de decadência? - A perda de equilíbrio, a resistência contra os instintos naturais, numa palavra, o «desinteresse» - eis o que até agora se chamou moral... Com Aurora empreendi eu, pela primeira vez, uma luta contra a moral de renúncia.

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